SOLIDÃO, LIBERDADE OU PAZ DE ESPÍRITO?
Por Fábio Moura.
Outro dia minha filha disse ter sentido muita pena de mim. Perguntei o porquê e ela respondeu que passava de moto com minha neta em frente ao Bar Copo Sujo e me viu sentado, em uma das mesas que ficam na calçada, tomando cerveja e olhando a rua e sem qualquer companhia. Disse ter pensado que eu não merecia tanta solidão. É óbvio que eu ri de sua cara e disse para não se preocupar comigo, pois, foi justamente quando um conhecido chegou e pediu para sentar ao meu lado, que cedi o espaço me despedindo, dando-lhe a desculpa que já estava de saída. Paguei a conta e voltei para casa. Tem hora que estar sozinho, em casa ou na mesa de um bar, não quer dizer que seja solidão, pode ser solitude, liberdade ou simplesmente paz de espírito.
Não gosto da solidão, acho que ninguém gosta, nem mesmo essa palavra me agrada, sempre está acompanhada de uma energia muito triste, tóxica e negativa. E de fato é quando se enfrenta um luto por morte ou uma história de amor interrompida, uma mudança geográfica para lugar onde não se conhece ninguém, quando se sente isolado do resto do mundo, quando esse momento é acompanhado da sensação de abandono, ou do sentimento de rejeição. Mas estar só consigo mesmo, pode também ser uma oportunidade de crescimento no plano criativo, espiritual e, sobretudo, como exercício de autoconhecimento. Quando estar só é um ato voluntário, livre e com algum propósito, seja para o descanso, o ócio, a meditação, a reflexão contemplativa, o autoconhecimento, não chamamos de solidão, mas sim de solitude. Eu adoro estar sozinho, nunca estou mal acompanhado quando estou comigo mesmo.
A indesejada solidão não acontece apenas quando estamos sós, isolados das pessoas, sem ter com quem compartilhar ideias, sensações, histórias, momentos em comum. É possível se sentir solitário mesmo quando rodeados de pessoas, em uma festa, no trabalho e mesmo dentro de casa, ao lado dos membros da família. É uma sensação subjetiva, que pouca relação tem com estar ou não acompanhado de alguém. A solitude, ao contrário, é o se recolher para estar sozinho, um isolar-se por conta própria, uma escolha racional para algum tipo de purificação, por isso é uma prática das mais positivas para nos autoconhecermos e encontrarmos nosso lugar no mundo.
Esse sentido subjetivo e negativo que carrega o termo e a sensação de solidão, consome a mente e as emoções de muita gente que vive neste estado. Pode gerar ansiedade, depressão, entre outros problemas mentais e emocionais e, com frequência, pode levar a automutilação e até ao suicídio. O antidoto não é simplesmente buscar com quem estar, ou estar com alguém, corremos o perigo de piorar nosso estado se essa escolha não for adequada. Não pode ser uma fuga, talvez sim, uma busca, talvez só precisemos nos reencontrar, sozinhos ou monitorados e, assim, toda essa energia negativa pode se transformar em positiva espiritualidade.
Estive casado por quase trinta anos, criei quatro filhos nessa relação, minha casa sempre estava repleta de pessoas entre parentes e amigos e, por diversas vezes, me sentia solitário, sem ter com quem falar, sem ter com quem me abrir. Hoje, separado e morando só, me sinto menos solitário, mesmo passando a maior parte do dia sozinho. São nesses momentos que experimento livremente, sem qualquer interferência externa, toda minha criatividade e talento no exercício da minha escrita, nas artes e na filosofia. Preciso estar só para escrever meu diário pessoal, instrumento que utilizo para meu autoconhecimento desde minha adolescência. Escrever diário sempre foi minha melhor terapia, é onde coloco meus dilemas sem o olhar crítico de outras pessoas, onde trabalho a solução de diversos problemas que me afligem, desde os problemas comuns do dia a dia, até os problemas existenciais e filosóficos que atormentam todo ser pensante, onde registro os momentos bons e tristes que passo ao lado de tantas pessoas que me ajudam a construir minha história.
Escrever é totalmente diferente de ler. Quando aproveito meus momentos de isolamento para ler, também não me sinto sozinho, mas não estou apenas comigo, estou com outro pensador que permito influenciar minhas escolhas e minha visão de mundo, estou em diálogo com outro alguém, o autor do livro. Ler é maravilhoso para quem se sente só, além da boa companhia de um livro, é uma atitude de humildade intelectual, nos leva para outros planos da existência, nos força a ver o mundo de outra forma. Quando leio admito minha ignorância e busco o esclarecimento a partir da experiência de outra pessoa, leio para aprender o que preciso saber para melhor viver.
Escrever é outra coisa, me coloca diante de mim mesmo, dos meus próprios pensamentos, do que me aflige interiormente, me ocupa dos planos que tenho para a minha vida e me força a encontrar respostas em minha própria reflexão, me tornando mais conhecido de mim mesmo, aguçando minha personalidade, meu caráter e me dando maior criatividade e poder de decisão. Nesses momentos percebo que nem sempre estar acompanhado é a melhor coisa a se fazer, às vezes, até para aproveitar bem qualquer companhia, é necessário antes uma boa dose de solitude, ou solidão.
Mesmo casais que vivem juntos precisam aprender a usufruir e respeitar o estar só um do outro. É saudável para relação quando os indivíduos envolvidos se permitem o autoconhecimento, o auto aperfeiçoamento, o amor próprio. É preciso, antes de mais nada, amor próprio se se quiser amar alguém. E é só quando estamos sós que podemos olhar para dentro do nosso íntimo, reconhecer e corrigir as próprias falhas, assim como perceber as potencialidades que temos de irmos além, de melhorarmos no que temos de bom para oferecer a nós próprios e quem está à nossa volta. Sem esses momentos, seremos para sempre marionetes dos caprichos alheios, do juízo externo, do olhar do outro. Nunca seremos nós mesmos.
A solidão, com todo o aspecto negativo do termo, pode nos levar ao adoecimento e um sofrimento perverso que pode ser trágico, tanto para nós como para quem convive conosco. Se torna um hábito tóxico que vai envenenando a pessoa dia a dia até a sua morte. Nestes casos, a ajuda psiquiátrica é fundamental, pois é muito difícil se livrar de problemas psíquicos enraizados sem a ajuda de um profissional qualificado. Minha reflexão pouca diferença pode fazer em casos de solidão patológica, quando o sofrimento toma conta do sujeito de modo constante e aparentemente imutável.
Escrevo, não aos que sofrem esse tipo de solidão, mas aos que a temem. Pessoas que dispõe de muitos amigos, familiares próximos, relacionamentos amorosos e que, quando se afastam um pouco que seja dessas pessoas, se sentem angustiadas, ansiosas e temorosas. Não há nada de errado em estar só, mas somos tão desconhecidos de nós mesmos, que o que nos apavora é a oportunidade de conhecer a nós próprios. Pessoas assim, quando entram em casa sem qualquer companhia, ligam o rádio, a televisão, a internet, acessam as redes sociais, precisam continuar ouvindo, vendo, conectadas com o mundo externo a elas, ao movimento de outras pessoas, porque conviver consigo mesmo parece muito assustador e perigoso. Mas não precisa ser assim.
Quem não suporta o silêncio, não suporta os próprios pensamentos e, tudo que sabe de si mesmo, é o que é relatado por outros. Passamos a agir como os outros nos descrevem, passamos a acreditar nessas visões distorcidas e exageradas de nós mesmos como se fossem verdades absolutas sobre nós, nos envaidecemos com bajulações baseadas na aparência de nossos bons atos e nos culpamos por críticas sem fundamento a nosso respeito, que mostram melhor o caráter do crítico, do que de quem está sendo criticado. Deixamos de sermos nós próprios para sermos a versão idealizada ou distorcida que outras pessoas rotulam e definem sobre nós e, adotamos, muitas vezes, essa imagem exigente, contraditória, angustiante, que nos adoece e retira qualquer sentido a nossa existência, porque não somos nós, nem o que sabemos de nós, nem o que queremos ser. Não sabemos nada de nós mesmos, nem procuramos saber, por isso tanta gente sem encontrar qualquer sentido nesta vida.
Sócrates nos ensina que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.” O autoconhecimento depende dessa solitude voluntária que nos devolve a paz interior, apesar das autocríticas que inevitavelmente surgem desta mais íntima reunião conosco mesmos. Desligar do mundo exterior, deligar o rádio, a televisão, a internet, se desconectar das redes sociais, se recolher, em um quarto que seja, por alguns minutos de cada dia, ou passar o dia inteiro nessa condição, pode nos curar de tanto medo, pressa e bloqueios que só atrapalham nosso desenvolvimento. Se recolher diariamente para se cuidar, pode parecer assustador para muita gente, para mim são os melhores momentos que tenho a cada dia, além de me autoconhecer, me liberta para conhecer cada dia mais e melhores pessoas sem ter de escolher qual máscara devo usar. Não preciso usar máscara, estou me conhecendo, me respeitando e até gostando do que tenho me tornado.
Vivo a maior parte do meu tempo só, mas há muito tempo não sei o que é solidão. Tenho muita gente querida ao meu redor, muitos amigos com quem me reúno frequentemente, meus filhos e minha neta que sempre estão por perto, meus colegas de trabalho, de associação, do sindicato, meus alunos atormentando meus dias úteis e minha namorada me amando nos fins de semana e feridos. Penso que sem esse tempo de solitude e reflexão diária, eu não teria paciência para atender as demandas que todas essas pessoas exigem com minha presença. Ocuparia meu tempo demais com os problemas dos outros e me perderia de mim mesmo. Logo, não seria nada por mim e nem por ninguém. É no meu recolhimento e solitude que também recarrego minhas energias, realimento meus amores, redefino minhas prioridades e, sempre que posso, reapareço. Às sextas-feiras à noite, por exemplo, é possível me encontrar tomando uma cerveja sozinho, em uma mesa na calçada, ali mesmo, naquela esquina, bem pertinho do Bar Copo Sujo.







.jpg)
.jpeg)




.png&largura=90&altura=90)






