APRENDENDO A VIVER.
Por Fábio Moura.

 A vida é algo de muito engraçado, às vezes. Nos prega algumas peças, nos coloca em enrascadas, as vezes nos deixa perdidos no mapa, outras nos obriga a tirar forças de onde nem se imagina para apenas sobreviver. Momentos ruins às vezes nos fazem acreditar que não haja mais nada a se aproveitar deste mundo. Passei por algo parecido há quatro anos quando perdi meu filho mais velho. Acreditei que nada de pior poderia me acontecer neste mundo cão que eu habitava, que o pior eu já havia experimentado, que qualquer coisa que viesse eu encararia sem medo. Pior que essa sensação, foi acreditar que nada de mais belo e doce poderia me ocorrer, que a vida perderia a graça para todo o sempre, que eu nunca mais sorriria para nada nesta Terra.
 Ainda creio que enterrar um filho seja o pior que pode acontecer a um pai ou mãe, mas estive redondamente enganado quanto a voltar a sorrir novamente e ser forte o suficiente para enfrentar qualquer desafio. O mundo é belo demais, a natureza é fantástica, os pássaros ainda cantam e eu posso ouvi-los, as pessoas perecem que estão mais bonitas, mais agradáveis. Como é gostoso fazer carinho no cãozinho, no gatinho, na criança. Como são lindas as crianças! Nada disso eu via mais, mas hoje eu vejo e também me vejo um pouco melhor depois que tudo isso que me transmutou.
 Só o amor é capaz disso. Essa energia misteriosa que nos envolve o corpo e a alma, que nos faz pulsar e rejuvenescer, que nos motiva e nos faz produzir, criar, sonhar. Voltei a cantar, a desenhar, a estudar, a trabalhar com mais alegria, a encontrar os amigos, a fazer novas amizades, a beijar, abraçar, sorrir como já nem lembrava de ser capaz. Estou amando e me sentindo amado como nunca pensei merecer. É aí que começam os meus problemas, acho que eu não aprendi a amar direito.
 Por que alguém tão especial estaria junto de mim? O que eu teria a oferecer em troca de tanta alegria e generosidade? O amor tem dessas coisas, nos fragiliza, nos deixa imbecis e eu, que não vejo graça alguma em minha pessoa, não consigo entender por que mereceria tamanha felicidade. Deve ser algum tipo de trote. Sei que essa não é uma paranoia exclusivamente minha, é esse tipo de complexo de inferioridade que provoca tanto ciúmes, tanta desconfiança, brigas e separações dolorosas. Dolorosa porquê de fato existe um amor, mas nem sempre o amor é suficiente. É auto sabotagem que se fala, né?
 Não existe essa coisa de amor eterno, que se for verdadeiro o amor nunca acaba, que o amor tudo suporta, o amor é frágil. Amor não alimenta relação, ao contrário, é o tipo de relação que pode sustentar ou matar o amor. Amor é planta rara que precisa ser nutrida e regada diariamente se se pretende preserva-la. E sim, todo mundo merece uma relação que produza bons frutos, bem-estar físico, mental, emocional e espiritual, que nos eleve e nos inspire. Todo mundo merece esse tipo de cuidado, todo mundo precisa experimentar o quão bom é cuidar desse jardim de felicidades. Mas a maioria de nós não sabe lidar com isso, não é verdade?
 Ah, como é ridículo o amar! Me sinto tão ridículo como nunca antes em minha vida, até escrever artigo sobre esse assunto estou me dispondo escrever, justo eu que sempre fiz piada deste tipo de comportamento. Eu que sempre me gabei de ser um animal racional, de não me apaixonar tão facilmente, fui ferido no peito pela flecha de Eros e hoje entendo como dói essa flechada e quanto veneno ela carrega em sua ponta. Droga poderosa e viciante é o amor. É assustador demais amar alguém, apavorante, eu diria, algo não recomendado para amadores e covardes como eu.
 Desses medos que algumas vezes beiram o pânico, pensei em fugir de qualquer compromisso, testei a sorte por “inexperiência afetiva” e, por medo de perder, quase perdi a minha vez de ser feliz. Mas como de bobo eu não tenho nada, fui no terreiro e pedi socorro para a malandragem que trouxeram ela de volta para mim. Sim, até macumba fiz, mas não podia perder essa mulher e a melhor oportunidade de ser feliz nessa vida. Aceito que estou enfeitiçado, assumo o risco que for, porque a recompensa de tantos desencontros finalmente chegou para mim e, espero que para ela também.
 Não é vergonha alguma amar e declarar esse amor, vergonhoso é desperdiçar boas relações com atitudes tóxicas, boicotar a própria felicidade com atitudes irracionais, impulsionado por paixões conflituosas que atormentam a mente e afastam boas pessoas destruindo saudáveis relações. Já vi muito isso acontecer ao meu redor, acredito que tenho maturidade suficiente de não me deixar levar mais por bobagens como essas. Vou cuidar desse precioso presente que a vida me traz depois de tantas desventuras, desencontros, desilusões afetivas, profissionais e espirituais. Me sinto feliz, acho que estou aprendendo a viver de tanto amar.
 Agora, que expus o ridículo da minha condição publicamente, aceito as piadas e os deboches que virão com o mesmo humor que tratei as aflições de amor de tantos conhecidos até bem pouco tempo atrás. Que se divirtam à minha custa, estou apaixonado e não podia mais ficar calado, mesmo reconhecendo o quão ridículo seja falar ou escrever sobre o amor, especialmente, quando se está apaixonado. Minha única preocupação mesmo é com os mal-amados, os invejosos, mas vou providenciar arruda e guiné, tomar um banho de proteção e mal olhado nenhum vai impedir nosso sorriso de felicidade. Sarava.


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