FELIZ DIA DOS PAIS, MAMÃE!
Por Fábio Moura.

Nunca gostei muito de comemorar o dia dos pais. Quando criança lembro de não querer fazer o dever na escola porque, geralmente, envolvia enfeitar um aparelho descartável de barbear e escrever um cartão para entregar no domingo para o papai. Meu pai havia falecido precocemente quando eu tinha apenas três anos de idade e esse não era um dia feliz para mim, especialmente na escola. Sentia inveja dos coleguinhas animados desenhando o rosto de seus progenitores e eu, com frequência, era obrigado a fazer o dever para entregar o presente para o tio, o avô ou meu irmão mais velho, que detestava igualmente essa ideia. Apenas uma professora no meu ensino primário teve a empatia de fazer diferente, comprou uma escova de cabelo cor de rosa e me incentivou a escrever um cartão para minha mãe, me ensinando que ela era tanto minha mãe, quanto meu pai.
Desde então, todos os dias dos pais eu dedicava à minha mãe. Quando fui morar longe dela, essa era uma das datas que não podia haver minha ausência, seja presencialmente ou mesmo por telefone, se eu esquecesse ela ficaria triste. Foi assim até 2015, em 2016 ela já não podia responder minhas mensagens nesta data. Minha mãe foi mãe, pai, irmã e melhor amiga. Só eu sei quanta falta eu sinto dela, justo dela que esteve presente em quase todos os mais importantes eventos de minha vida.
Já meu pai, não teve culpa alguma de sua ausência em minha vida, nem ausente esteve totalmente. Bancou financeiramente a mim, minha mãe e meus irmãos mesmo tendo morrido tão precocemente. Naquele tempo a previdência social ainda funcionava e, como contribuinte que foi, papai deixou uma boa pensão e continuou bancando muitas das despesas que mamãe tinha conosco. Ainda assim, sua presença física em minha juventude foi tamanha que até hoje sinto falta de seus conselhos, esporros e, até mesmo suas surras. Papai parecia ter prazer em surrar os filhos, fui poupado pela pouca idade com que o perdi.
Sei muito bem o que é ser um menino e crescer sem a influência positiva de uma figura masculina. As crianças precisam de pessoas que as influenciem positivamente para que cresçam com caráter e perspectivas de vida. Como ser um homem ético sem um homem ético para ensinar como se comportar, alguém que a criança possa imitar? Em minha infância e juventude, isso parecia determinante na formação da personalidade de uma criança. Hoje em dia, as coisas parecem ter mudado, já não se vê tantos pais como antigamente, as novas gerações estão sendo criadas por mães solos, tias e avós, embora nenhuma dessas crianças tenha sido gerada com o dedo. Pais ausentes que só servem como maus exemplos para seus próprios filhos. As escolas, inclusive, já não comemoram o dia dos pais, mas sim o dia da família, conceito mais amplo, que contempla a maioria das crianças e não deixam tantas se sentindo excluídas.
Fui pai muito jovem, com apenas 20 anos e, depois disso, criei 05 filhos sempre estando presente em suas vidas. Não que eu fosse melhor que outros pais de minha geração, mas pela ausência que tive do meu, quis eu ser o melhor pai que meus filhos pudessem ter. Fracassei totalmente neste projeto, mas fiz o que de melhor pude fazer a cada um deles, quase nem sinto culpa por isso. Orgulho de ter estado presente na vida de minhas crianças, também não sinto. Não fiz nada mais que minha obrigação e, ainda assim, deixei muito a desejar.
O que me parece estranho é o fato de muitos “homens” ou, quase homens, meninos, como suas mães o chamam, saberem exatamente como colocar uma criança no mundo, mas que pensam que basta isso para serem homens e se dizerem pais. Se ser homem é ter um pinto que endurece, que cresce, que ejacula, procria e abandona, seria melhor nem ser homem. Gabar-se de uma certa masculinidade ofensiva, opressiva, dominadora, estúpida e totalmente ausente, é a atitude mais idiota que os ditos homens de hoje em dia parecem ostentar.
Pior que meninos, são moleques. Ser pai não é gozar sem camisinha dentro de uma menina e abandoná-la com sua cria. Isso é ser canalha! É preciso sair da barra da saia da mãe se quiser ser pai. Ser pai é para a vida toda. Não é título, é bronca, responsabilidade, treta braba, mesmo, irmão! Colocar filho no mundo é fácil, qualquer idiota é capaz disso e, a maioria deles tem feito esse tipo de coisa. Difícil é ser pai, assumir as consequências, pagar as contas, amar e, principalmente, estar presente.
Hoje em dia, meus filhos estão todos grandes, a mais nova com 16 anos. Mesmo assim, neste dia dos pais, como em todos os outros, receberei suas visitas com seus mimos em minha casa. São eles que preparam o almoço deste dia todos os anos, nem a louça eu preciso lavar. Embora eu sempre tenha ensinado eles que essa é uma data comercial, produto do capitalismo para estimular a venda no comércio e o lucro dos patrões, que todo dia é dia dos pais, das mães, das crianças e dos professores, não teve jeito. Se um dia eles esquecerem de mim nesta data, sentirei falta deles assim como minha mãe sentia a minha, tão mal-acostumado me deixaram.
Eu amo ser pai, com todas as dificuldades que isso inclui. Tenho a sorte de ter bons filhos e uma linda neta presentes em minha vida. Adoro cuidar de minha neta para minha filha, que também é mãe solo, poder estudar, trabalhar e se divertir. Não basta ser pai ou avô, é preciso participar. Mas isso nem chamo de obrigação, é um dos maiores privilégios que um homem pode desfrutar na vida. É uma pena que tão poucos homens da atualidade possam experimentar tamanha benção, mesmo que finjam essa presença nas redes sociais, coisas que é só para inglês ver mesmo.
Não fossem tantas mulheres se desdobrarem como mães e pais, a sociedade se encontraria em situação muito mais preocupante e grave do que já se encontra. São a essas pessoas, essas mulheres sobrecarregadas, muitas vezes chamadas de guerreiras, que dirijo essa minha homenagem, muito mais que aos muitos pais que amam verdadeiramente seus filhos, como muitos que conheço, que não abandonam, que educam e merecem igualmente serem homenageados. Tenho orgulho de ter me tornado um bom pai tendo como pai apenas a minha mãe. Sei que a luta dela não foi fácil, mas ela venceu todas essas batalhas. Vi seu pranto tantas vezes e falta de alguém que lhe ajudasse, que decidi nunca deixar de educar e cuidar dos meus filhos, não sobrecarregando suas mães. Com todas as minhas falhas, sei o quão importante isso é na vida deles.
As mães de hoje em dia precisam de muito mais energia para conduzir bem seus filhos, o mundo anda muito mais perigoso, as pessoas muito mais egoístas, as coisas muito mais caras e muitas destas mulheres têm feito um trabalho excelente, que não pode deixar de ser lembrado. São mães e são pais e, por mais falta que os progenitores façam na formação de seus filhos, quem mais perde com essa ausência é o ausente, o pai. As crianças um dia crescem e reconhecem quem esteve sempre ao seu lado. Feliz dia dos pais, mamãe.


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