Um ano da tentativa de golpe que saiu pela culatra

Há um ano, naquela vergonhosa tarde de domingo, eu estava em São Pedro dos Ferros, na casa de minha sogra, minha esposa, que estava de férias tinha decidido ficar por mais alguns dias com as meninas, eu, que não estava de férias, precisava voltar para Viçosa. Eram quase quatro da tarde quando terminei de juntar as coisas, e conferi a água e nível do óleo do carro para pegar a estrada. Mesmo já conhecendo bem a estrada, eu tenho o costume de acionar o Waze, pois ele me avisa de acidentes, buracos e outras intercorrências na estrada. Informei o destino no aplicativo e dei uma última passada de olho nas redes sociais e foi aí que eu tomei um susto. Vários posts já relatavam a invasão das sedes dos três poderes por extremistas de direita.

Ao ver aquilo tudo eu temi pelo pior. Desde a derrota do presidente anterior nas urnas, o a possibilidade de algum tipo de ruptura não de todo descartada, mesmo pelos democratas mais otimistas. O candidato vencido não reconheceu formalmente, como é de praxe, a vitória do adversário. As forças armadas ainda toleravam mobilizações de golpistas em frente aos quartéis pedindo intervenção militar. O governo eleito começa o ano pisando em ovos, a situação econômica, a composição das casas legislativas e a polarização ainda atenuada formavam um contexto adverso, que o presidente eleito precisaria enfrentar para governar.

Viçosa nunca me pareceu tão longe de São Pedro dos Ferros. Cheguei a fazer uma parada em Ponte Nova, que está no meio do caminho, olhei as notícias e o que pairava no ar ainda era o Caos. O Lula, que estava em Araraquara, no interior de São Paulo, já havia se manifestado e no pronunciamento ele chamou os invasores e financiadores de fascistas, garantiu que seriam punidos na forma da lei e lei e assinou o decreto que tratava da intervenção federal.

Quando cheguei em Viçosa, passei a acompanhar o desenrolar dos fatos pela TV, a turba já havia sido contida, o controle sobre os prédios recuperado. Os efeitos da depredação eram bizarros, mobiliário destruído, um mural de Di Cavalcanti danificado, exemplares originais da constituição destruídos… Contudo, a ação rápida, mostrou que apesar da mácula material, a democracia tinha sobrevivido, pois, ao contrário que imaginavam os néscios que invadiram os prédios, a força das instituições não está em seus ambientes físicos.

No fim das contas o tiro saiu pela culatra. A ala extremista mostrou sem pudor a sua real face, o que não deveria ser visto como novidade, afinal tais atos já haviam sido ensaiados por diversas vezes por autoridades políticas deste espectro em seus discursos, mas desta vez parte de quem votou no candidato derrotado se constrangeu diante de tamanha vergonha. Deste constrangimento surgiria mais adiante a narrativa de que quem protagonizou os atos não foram a horda de extrema direita, mas militantes de esquerda infiltrados. A tentativa de se desvincular dos atos não funcionou, hoje apenas negacionistas defendem que a invasão e depredação foram feitas por infiltrados.

O repúdio aos atos golpistas uniu à direita democrática, o centro, e os diversos espectros da esquerda. Era o impulso que Lula precisava para iniciar o mandato falando para um percentual da população maior do que aquele que havia o elegido. Por ironia do destino, foi aberta uma CPMI, a pedido da bancada de extrema direita, para investigar os atos. O que só serviu para fortalecer a figura do Flávio Dino, ministro da justiça e seus discursos poderosos, e para deixar ainda mais evidentes as impressões digitais do governo anterior nos atos.

Hoje, um ano depois, alguns peixes pequenos foram condenados, outros seguem ainda sendo investigados. Eu, todavia, não creio que o poder punitivo do Estado alcance grandes figurões nas casernas, nas instâncias de poder do próprio Estado, nos púlpitos, ou no Vivendas da Barra. Há, apesar disso, algo a ser comemorado, afinal de contas os efeitos de uma ruptura consolidada seriam devastadores.

Seria também inocência imaginar que os ataques às instituições, que é no fundo um ataque à própria constituição e à democracia que ela garante, iriam cessar com algumas prisões. Tanto o constitucionalismo quanto a democracia, exigem vigilância constante, e, mais que vigilância, exigem a noção de que são construções permanentes, que podem ruir sem o esforço coletivo para mantê-las de pé e em atividade.

 

*José Bruno Silva é graduado em Direito e em Comunicação Social, especialista em Teoria do Direito e Gestão da Comunicação e mestrando em Direito. Advogado, OAB/MG 225.228.

 

 

Foto: Reprohttps://www.pragmatismopolitico.com.br/


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