Hoje vamos falar sobre polarização! Já há alguns anos o Brasil vive uma gravíssima polarização e, calma, não é a política, que, apesar de ter sido escancarada na última década, sempre existiu. Estou falando da polarização entre quem assiste e quem não assiste o Big Brother Brasil. E, bem, eu não estou aqui para ser o chato do rolê, não tem problema nenhum se você gosta ou não de assistir. Conheço pessoas estúpidas que não assistem, e pessoas inteligentíssimas que acompanham com afinco. Eu nunca fui de acompanhar, há tempos eu tenho tido pouca paciência para TV aberta. Mas, as discussões sobre o programa sempre respingam nas redes e até mesmo fora delas.
E, ao contrário do que imaginei que fosse acontecer, mesmo neste início de ano em que decidi me afastar das redes para me dedicar um pouco mais à escrita da minha dissertação de mestrado, no giro que eu faço todas as manhãs pelas principais notícias, o reality e suas repercussões estão sempre presentes. O apontamento como racista da conduta de participantes que isolaram um rapaz negro, é o mesmo rapaz negro ganhando uma bolsa integral de medicina, o que fez a favela vencer mais uma vez (contém ironia), é a patricinha que é vegana e fuma (espera, cigarro tem algum ingrediente animal?), é a outra patricinha que alimenta por anos nas redes uma imagem de fitness e de saudável e que também fuma, é o rapaz negro que colocou carne no feijão e despertou a fúria da patricinha branca vegana. É o rapaz que chamou o outro de “calabreso”. A moça que tem uma forma peculiar e perigosa de usar o vaso sanitário. A parte da casa que está tentando não se envolver com essas tretas e é acusada de não estar jogando.
De novo, eu não quero ser o chato, mas sei que entre o não querer e o ser existe uma distância… não tem problema nenhum gostar de acompanhar tudo isso, não tem problema nenhum torcer com afinco para um ou outro personagem, não tem problema debater com os torcedores de outros participantes. O problema é que frequentemente na tentativa de justificar o fato de estarem assistindo ao programa, algumas pessoas tentam forçar um viés intelectual para o mesmo que não existe. Bem, análises interessantes podem ser feitas, mas na maior parte do tempo o que se tem ali é mero entretenimento, que pode refletir condutas observáveis cá fora, mas que é artificial. Quem define quem serão os heróis e os vilões de cada ano não são os comportamentos dos próprios participantes, nem o público, mas a edição e as outras formas de controle que os produtores detêm sobre a casa.
O erro está em confundir reality show com realidade e isso mina qualquer possibilidade de análise, o que é similar à análise de um filme ou de um romance, se quem se dispõe a analisar já não parte da noção de que são obras, com autores e não pedaços de realidade, o resultado será tão somente uma sequência de equívocos. No reality predomina a dinâmica do jogo e mais que isso, a expectativa do jogo, no mundo real as pessoas não estão jogando o tempo inteiro, ainda se consegue relacionar com pessoas sem imaginar todas essas pessoas como adversários. Na lógica do jogo, digno de louvor do público é aquele que define um objetivo e trama para que este objetivo seja realizado, fazendo conluios com pessoas que mais adiante ele será obrigado a descartar. Pois é, parece a ética utilitarista do neoliberalismo, só parece, porque, como eu disse, a casa vigiada não é o mundo real. Comportamentos dentro da lógica do jogo não são naturais, eles são induzidos, pessoas em uma situação de confinamento e de constante pressão e indução de confrontos não necessariamente irá se comportar da mesma forma que se comportaria cá fora.
O problema maior que decorre de tudo isso é que o foco de movimentos extremamente importantes sai da realidade e recai sobre as condutas não naturais. Deixamos de discutir o racismo estrutural de passamos a discutir condutas individualizadas, como se tal discussão pudesse representar algum tipo de ganho para a luta antirracista, e o mesmo ocorre em relação ao machismo, à LGBTQIA+fobia e tantos outros temas importantes. Creio que a imagem que melhor representa o tema que está sendo tratado aqui é o meme dos três meninos jogando vídeo game, dois deles estão de fato jogando, o terceiro, que é o menor, está com o controle desligado, apesar disso ele acredita também estar no jogo. Em relação ao BBB, que está no jogo é a Globo, os patrocinadores, os inúmeros “influencers” que lucram com a cobertura dos fatos, o público segue com a manete desligada, crente que está sendo relevante.
Reconheço que toda a discussão sobre o BBB poderia ter um caráter pedagógico, pessoas poderiam aprender mais sobre racismo quando o comportamento de pessoas acusadas de racismo está em pauta, mas não é o que acontece, e isso de deve ao fato de que aquilo que é mera representação estar sendo tomado como uma pequena amostra da verdade. O mundo real (no qual o próprio programa está inserido) é muito mais complexo do que as discussões maniqueístas que tentarão transformar alguns em vilões e outros em verdadeiros heróis. Talvez seja o caso de discutirmos menos os eventos do reality e mais as nossas próprias reações diante destes eventos.
Eu não queria ser chato, juro, não queria…
*José Bruno Silva é graduado em Direito e em Comunicação Social, especialista em Teoria do Direito e em Gestão da Comunicação e mestrando em Direito. Bancário e advogado (OAB/MG 225.228).
Imagem ilustrativa internet







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