Eu descobri que a felicidade de ter um filho só é plena porque existe a completude de ter uma boa esposa

Tempos antes de o meu filho nascer, eu assisti ao trecho de uma palestra do Mário Sérgio Cortella. No vídeo, ele descrevia algumas situações que viveu com o pai dele, quando era criança. Ele conta que o pai era o gerente de banco, em Londrina, no Paraná, e precisava visitar presencialmente os clientes naquela época. Era estrada de chão, tinha muita poeira e o deslocamento precisava ser feito de Jipe, um carro bruto e desbravador de estradas ruins. Chegava sempre com poeira até nos olhos. Mas, sem reclamar, entrava em casa e abria um sorriso no rosto. Depois dizia: - olha, meu filho, que dia abençoado... hoje, graças a Deus, não choveu.  

Em outro relato, Cortella conta que certa vez acabou a gasolina do Jipe na estrada, depois de um dia inteiro visitando clientes. Ao entrar em casa, o pai falou: "- olha, meu filho, como eu sou abençoado. A gasolina do carro acabou hoje, mas só faltavam dois quilômetros para chegar no posto de gasolina”. Essa história ecoou na minha mente como um sinal de como eu precisava ser de fato enquanto pai. Aquele pai que passa segurança, que mostra perseverança para o filho.  

E essa filosofia de como ser um bom pai ficou mais cristalina quando li uma frase que também criou raízes na minha mente. A frase é um questionamento: “Você pode até estar disposto a morrer pelo seu filho, se for preciso. Mas será que você estaria disposto a viver pelo seu filho? A viver pela sua família? Como uma máquina onde uma pequena engrenagem começa a girar, assim eu encarei essa reflexão. Passei a tratar minha saúde como algo primordial para estar sempre de prontidão em qualquer momento que minha família, minha esposa e meu filho precisassem de cuidado. 

Essa semana, meu filho, o Miguel, passou mal. Levamos ele ao pronto atendimento. Passava das nove da noite. Demorou umas duas horas para ser atendido. Não era algo tão grave. Mas precisou tomar medicamento e soro, devido à desidratação causada pelos vômitos. Minha esposa estava lá dentro, na enfermaria, com ele. E eu aguardando lá de fora, na sala de espera. Lá pelas duas da manhã, quando terminou de receber a medicação, começou a tomar soro.  

Conversando por mensagem, minha esposa dizia que o sono já ia apertando. Também ia apertando a angústia e a ânsia para ver a melhora do nosso menino. Lembrei que daria para fazer uma estimativa de quando acabaria o frasco para que a gente fosse para casa. Uma ML tem cerca de 20 gotas. Pedi que ela contasse quantas gotas caíam em um minuto. Estimei que levaria mais ou menos duas horas para o soro acabar.  

É coisa boba, mas, pelo menos, a partir dali, ela teria ideia de quando poderíamos ir para a casa dormir. Fica mais fácil esperar quando sabemos o prazo.  Não era só meu menino que precisava de cuidados. Minha esposa estava lá dentro com sono. Eu precisava dar suporte, por mínimo que fosse, para ela levar aquela situação com um pouco de tranquilidade. 

Miguel já está bem. Uma coisa que me impressiona é a capacidade que o amor, pelo filho, tem para crescer. É um amor, sem dúvida, transformador.  Hoje eu amo muito mais a minha esposa do que eu amava antes do nosso Miguel nascer. Tenho um respeito, uma admiração e uma necessidade de cuidar dela que só aumentam a cada dia.  

Depois que meu menino nasceu, percebi que não tem como eu ser um ótimo pai se antes não me esforçar para ser um excepcional marido. A criação de um filho passa pelo exemplo que ele tem em casa, pela percepção que ele tem dos pais. Principalmente pela forma como o pai trata a mãe dele. O bebê encontra nos pais toda a necessidade de afeto que ele precisa. E ele se sente muito mais protegido, muito mais feliz, quando aquelas fontes de afeto dele também são as fontes um do outro. 

Tenho plena convicção de que à medida que o tempo passar precisarei me esforçar muito mais para fazer a mãe dele feliz. Por ele e para ela. Até porque graças a ela foi que eu posso me ver realizado como pai e como esposo hoje. A maior alegria que eu tenho na vida se fez possível porque essa mulher, mãe do meu filho, me proporciona.  

Eu descobri que a felicidade de ter um filho só é plena porque existe a completude de ter uma boa esposa. E é cuidando do meu amor por essa mulher que eu espero um dia passar para o meu filho uma imagem parecida daquela que o pai do Mário Sérgio Cortella passou para ele. A imagem de um pai que se fazia superior às mais catastróficas adversidades da vida.

*Jonathas Mendes é mineiro de Montes Claros, vivendo em Juiz de Fora. Casado com uma baiana, pai de um baianeiro, o Miguel. Jornalista com vocação e gosto pelo jornalismo literário.



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