Enquanto aguardavam atendimento no Pronto Socorro local, duas senhoras que acabavam de se conhecer ocasionalmente — aparentando 35 e 55 anos — mantinham uma “boa” prosa. A primeira sentia-se desgraçada com o desajustamento da filha: "Já não sei o que fazer para amenizar a penúria". A outra indagou se já havia procurado uma igreja, indicando logo que recorresse a um pastor, citando-se ela própria como exemplo de sucesso total obtido ao "aceitar Jesus como Salvador", dizendo da mudança radical ocorrida em sua vida para jamais voltar a ser infeliz.
Valendo-se da atenção absoluta que lhe dava a interlocutora, a aconselhadora citava até as palavras a serem pronunciadas ao "conversar naturalmente com Deus" toda vez que sentisse necessidade de desabafarse e de pedir ajuda. E completava: "Dirija ao Senhor as suas súplicas em qualquer momento e local, até mesmo dentro do banheiro, onde eu tenho me sentido até mais à vontade pra orar, saiba".
Apressando-se em atribuir o infortúnio da família ao "maligno", do qual só um "homem de Deus" poderia libertá-la, recomendou jamais orar ao pé de imagens, que "Jesus condenava isto", que a "imagem traz sempre escondido por detrás o demônio", que "um demônio não espanta o outro..."
Tomada da mais forte emoção e não conseguindo esconder o seu mais absoluto convencimento, a mãe sofredora despediu-se agradecida, rumando-se, decerto, para o primeiro "tabernáculo" de plantão. Seria tão válido assim invocar a ajuda divina sem antes avaliar bem a situação, fazer uma auto crítica, refletir, perguntando a si mesma e à filha se os problemas que vive hoje não decorrem de omissão ou má orientação dos pais, ou então da recusa sistemática da filha em seguir o caminho indicado como melhor? Será que a maneira como os pais têm se conduzido na vida não explicaria facilmente um desvio de conduta da moça?
Encontrada a explicação e assim admitindo — a filha ou os pais — que realmente falhou(aram), não seria o momento de humildemente pedir(em) desculpas, de se confessar(em) sinceramente arrependido(s) e se solidarizarem numa ajuda mútua visando superar tudo, antes de buscarem a ajuda de um pastor ou seja lá que religioso for? — Não seria mais inteligente a própria mãe queixosa valer-se da oportunidade para retrucar à cinquentona questionando a validade da orientação?
E mais: não é que se todos os casos assim recebessem o tratamento ora sugerido, neste terceiro milênio já não teria lugar para esse infantilismo, que é indicar para todos os males, o "exorcismo"! — sugeriu alguém para quem este observador relatou posteriormente o fato.
*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.
Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.
A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.
academiaubaensedeletras@gmail.com







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