Nesta altura eu já me libertara das chineladas que antes levava de mamãe para aprender.

O SEGUNDO ANO (1959)

Eunice da Rocha Reis veio a ser a nossa nova mestra, no mesmo Grupo Escolar Raul Soares, ainda dirigido pelo ancião José Domingos Loureiro. Era alguns anos mais nova que a antecessora. Ainda solteira, aparentava uns vinte e dois anos. Assim tão jovem, era mais como uma moça bonita a quem eu devia respeitar do que uma segunda mãe que a irmã dela, a Dona Celma, eu admitira que fosse.Dona Eunice veio a ter por este discípulo certa predileção. Isto, graças à desenvoltura com que eu ‘recitava’ de improviso os pontos.

Num tempo em que valia a decoreba, eu os gravav a com a relativa 1facilidade permitida pelo privilégio da boa memória, evidentemente que à custa de esforço e dedicação.

O aprendizado parecia constituirse numa resposta positiva ao esforço da professora no trabalho de ensinar, daí a simpatia por este modesto aluno. Eu já sabia ler e olhar as horas quando dona Eunice passou aquele ponto (lição) “A sala de aula”. Foi sensacional aprender a contemplar aquelas quatro paredes cheias de cartazes, que passei a ficar namorando nos primeiros dez minutos do recreio, este que durava meia hora.

Copo plástico cheio de leite quente amorenado, adoçado que era com açúcar queimado, da fila da Caixa Escolar eu corria a merendar no interior da sala-de-aula. Ali permanecia a contemplar o feijãozinho que havíamos plantado — eu e os colegas, sob a orientação de dona Eunice. Era motivo de grande admiração minha o fato de a plantinha ir crescendo com o caule torto, procurando sair pelo buraco da caixinha de papelão em busca de oxigênio.

Eu achava que não devia deixar a plantinha sem água, mas que também um pouquinho de leite poderia valer como alimento. Acabei por ser repreendido por dona Eunice quando o feijãozinho morreu vítima do calor do leite que eu derramara em sua raiz. Não me lembro se ela me chamou de burro ou de...Outro ponto (lição) que tenho na memória intitulava-se “A casa”.

Nas minhas idas à zona rural recordava alguns trechos, como aquele onde se lia: “As casas na roça são geralmente feitas de barro — e cobertas de sapé — e de pau-a-pique”.Eu assistira integralmente às aulas do primeiro ano. Tamanha dedicação não me fizera escapar dos puxões de orelha de mamãe. “Que cabeça dura você tem para aprender a fazer o “u”, meu filho!”, dissera no ano anterior a mesma dona Catarina, para depois se envaidecer do filho, agora aluno elogiado na Segunda Série.

Chamados como os de duas irmãs solteiras da vizinhança da minha casa já não eram raros. Essas moças, no caso, que não sabiam lerqueriam que eu o fizesse pra elas no jornal do dia, e em voz alta. Tratava-se sempre do Horóscopo, que podia sugerir o surgimento de um príncipe encantado na vida delas. Positivo ou não o horóscopo, o ‘leitor-mirim’ retornava à casa sempre ‘todo inchado!’. 2Nesta altura eu já me libertara das chineladas que antes levava de mamãe para aprender. Afinal, na comparação que as moças faziam de mim com gente mais escolarizada eu lograva, no conceito delas (que insistiam em afirmar que era sincero), melhor classificação, o que otimizava a minha ficha junto a mamãe.

Antes de findo o ano letivo, uma súbita mudança de professora: dona Eunice foi substituída por dona Cleonice, também irmã dela. Mais brava, a nova mestra só não usava a palmatória porque já caíra de moda. A gente aprendera pelo sistema antigo, mas a minha leitura fluente sugeria um aprendizado pelo Método Global de Contos, que ainda não existia. E vinha dona Cleonice fazendo a gente ler uma sílaba enquanto, com uma tira de cartolina ocultava as outras. Era um treino na silabação, mas também um teste de leitura. “Hun... se eu até já dava ponto de cor...”, pensava.Gladstone, um colega de próximo da minha carteira, passara para o segundo ano sem saber ler.

Os puxões de orelha que literalmente levava nos testes de leitura lembravam-me as “carranquices” de dona Celma para comigo um ano atrás.Aprovado para a Terceira Série, deixei para trás colegas também como Daniel — protestante da Assembleia de Deus, era muito inibido; o “sembreísta”, como o rotulavam os colegas, era autorizado a ausentarse da sala durante a única aula mensal do padre frei Cornélio, à qual voltaremos mais à frente. A dificuldade em aprender fizera Daniel experimentar o castigo de permanecer de joelhos sobre grãos de milho.

(*) do livro FRAGMENTOS, do mesmo autor.

*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.


Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.


A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.


 academiaubaensedeletras@gmail.com


 


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