Ao compor Aquarela do Brasil em noite chuvosa de 1939, o compositor mineiro Ary Barroso praticamente fundou o subgênero do samba que seria rotulado como samba-exaltação.

Sabemos que a notícia da morte do compositor do samba-exaltação decerto mais famoso do mundo, Ary Barroso (alguns grafam “Ari”) — ocorrida antes dos seus 61 anos e seis anos depois de ter vindo a Ubá para inaugurar o Tabajara — chegou no momento em que a Escola de Samba Império Serrano estava de saída na Sapucaí para ser ele (e sua obra-prima) o grande homenageado do desfile.

Ao compor Aquarela do Brasil em noite chuvosa de 1939, o compositor mineiro Ary Barroso (07.11.1903 - 09.02.1964) praticamente fundou o subgênero do samba que seria rotulado como samba-exaltação.

Há a música que diz “em fevereiro / tem carnaval...”, mas neste 2025 foi em março. Como está recente, fazemos desta publicação nova chance de homenagear o imortal compositor com o trabalho deste escriba de há 25 anos.


 

ABRE ASPAS PARA ESTE MESMO CRONISTA, PARA FECHAR AO FINAL

COMENTANDO A ANÁLISE LINGUÍSTICA DA‘AQUARELA DO BRASIL’


Agradeço ao — ainda anônimo — remetente do jornal “Atos Oficiais – Especial - Ubá em Ritmo de Aquarela”. Dei com o exemplar na minha caixa de correspondência, na mesma data da edição, 18/8/2000.

Li com atenção cada artigo, cada palavra, letra, caractere, sinal gráfico. Para mim, um convite à meditação. Li Loreto, Ângelo Oswaldo, Câmara Municipal, Deputado Marco Regis, Juízes do Tribunal de Alçada; li Levindo Barros, Senador José Alencar, Iran Jacob, Zé Maria Camiloto; li Mauro Paulino, Ilza Ribeiro, Roberto Carvalho, Marilene Lopes, Marlene Marques, Marum Alexander; li a letra da Aquarela do Brasil, o Samba Enredo da União da Ilha/88, o trecho destacado do texto do jornalista Fernando Lobo (Revista Manchete 1954); e, no corpo de alguns dos artigos, citações de jornais deste Brasil afora, muitas feitas pelo jornalista Levindo Barros, outras contidas no discurso do Senador José Alencar.

Li tudo. A seguir, reli aqui, reli ali... tudo falando da música do Ari(zão), do nosso Ari, do “Ari de Barro” (nos dizeres de Iran Jacob). A grafia figurava mesmo assim: ora Ary, ora Ari.

* Reli, não só para experimentar por mais uma vez o prazer, a emoção da leitura, ou para curtir o meu bairrismo, tirar alguma dúvida, memorizar alguma parte importante. Reli, sobretudo, para decidir qual o texto a destacar sem ser injusto. Na crônica do escritor Mauro Paulino, o acadêmico da AULE encarna, como ninguém, o Gênio da Aquarela.

Não vou dizer que optei pela Análise Linguística, da professora Ilza Ribeiro. Em razão, porém, da limitação de espaço talvez não chegue, no presente trabalho, a tecer apreciação sobre os demais textos, muito bem trabalhados que foram, todos bem redigidos e de conteúdo excepcional.

Em outra palavras, nada registrei que não fosse esclarecedor. A Análise Linguística foi, contudo, onde me detive mais. Aliás, fiquei maravilhado. Quanto aprendi com ela! Que bom perceber que temos, aqui, na terra de Ari, autoridade desse porte, nessa matéria.

Permita-me a professora Ilza Ribeiro – a quem começo por parabenizar! – lançar mão de algumas de suas próprias expressões (usadas por ela no texto), ou eu não saberia como passar ao leitor a minha mensagem.

 Pois bem. Tendo em mãos o texto da Aquarela do Brasil, o leitor observa o quanto ali se contém do que Ilza chama de “pleonasmos, reiteração de elementos da mesma origem e com significados iguais (‘Meu Brasil Brasileiro’ e ‘Ô esse coqueiro que dá coco’), uso de vocábulos em desuso ou com significado polêmico ou impreciso (‘inzoneiro’, ‘merencória’), prosopopeias, ‘intenção dêitica’ no uso de interjeições e de verbos no imperativo. Citando, ainda, a expressão Bota o rei congo no congado, observa Ilza: “a forma verbal 'Bota' traz o texto para o patamar de língua popular e instaura um discurso direto de cumplicidade e emoção”.

Se não tivesse havido toda essa repercussão ao longo do tempo, a origem da inspiração ou o alvo da homenagem não dariam, por si, a Ari Barroso esse mérito de artista que não temos como não lhe atribuir – foi o que entendi que, com rara propriedade, esclarece a “nossa analista”. Esclarece e convence, porquanto não deixa subsistir dúvida.

Ilza admite, no que pude entender, como plenamente justificáveis os tantos recursos de linguagem utilizados na composição de Aquarela do Brasil que, para meros leigos em matéria de Análise Linguística não passariam de incorreções grosseiras, imperdoáveis até.

Dizendo da “liberdade de criação que todo artista possui”, a professora universitária ubaense esclarece que “nas questões que envolvem a arte, a objetividade total não é possível”; que o texto comporta “outras análises (...) que podem divergir, desde que apoiados em argumentos lógicos ou mesmo apenas convincentes, em se tratando de obra literária de ficção, portanto de criação”.

As colocações de nossa mestra remetem a algumas reflexões, que eu não gostaria de fechar este artigo sem apresentar. Elas fazem sentir o quanto o tratamento que é dado, no sentido de considerar válidas ou não criações de profissionais da cultura, se relaciona com o quanto tais ações venham, ou melhor, vieram a ter aceitação pública. Isto parece ajudar, e muito, a explicar o fato do enriquecimento de tantos por aí à custa de criações que, em que pese o fato de serem, no mínimo paupérrimas em vários sentidos, repercutem, da forma mesmo como são feitas.

Transportando-nos para a questão social neste “país da Aquarela”, vemos o quanto tal forma de considerar válidos ou legítimos os feitos das pessoas se reflete na questão da prática de atos lesivos a outrem, quando, por exemplo, nas sentenças judiciais, saem favorecidas pessoas “de poder”.

Aproveitando que o assunto se aplica ao fechamento do texto como segue, eu perguntaria se Jesus, o Nazareno, não fosse o atrelamento (na época) do Poder Civil ao Poder Eclesiástico - com a adoção incondicional do “quem não é por mim é contra mim” -, se aquele Pobre Galileu teria sido, como foi e é, tão reconhecido no seu papel.

Pois bem: se entendermos que dependeu do “sistema” (mais que do povo) de dois milênios atrás, estaremos admitindo que o “Filho de Deus” poderia não ter sido tão acatado assim.

Considerada, pois, a observação que acaba de ser feita, seria o caso de se admitir a inocorrência do sucesso que veio tendo o trabalho mor de Ari Barroso, hoje inquestionavelmente legítimo e, neste caso, poderiam não ser bem aceitas análises, assim positivas, da linguística da Aquarela.


*Na foto vemos Ary Barroso — com a representatividade que tinha — como quem a confabular (no bom sentido) com o então Presidente Juscelino

*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.

Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.

A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.

 

academiaubaensedeletras@gmail.com


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