As pessoas moram juntas uma existência, anos e anos, e não se conhecem. Os sentimentos mais íntimos ficam soterrados pelo grosso modo do viver diário.
Esse desinteresse das pessoas pelos próprios familiares é como uma ferrugem corrosiva que destrói a beleza do viver comunitário e se alastra na célula social como uma erva daninha a sufocar a beleza de um conviver fraterno. Raramente os familiares escutam-se uns aos outros.
- Ninguém me compreende nesta casa! – explode a mãe e esposa, cansada de ser uma máquina de proporcionar conforto aos familiares.
- Estou aflito para sair desta casa! – grita o adolescente repreendido pelas notas baixas.
Sem mencionar as exigências das mocinhas para comprar roupas novas ou suas revoltas por não poderem ficar nos bares até "mais tarde", desacompanhadas de pessoas responsáveis – nesses bares que marginalmente vendem bebidas alcoólicas a crianças de treze a dezesseis anos.
À mesa, o clima continua nas falas estéreis e sem diálogo.
- Você ainda não aprendeu a fazer o que eu gosto!
- Sou sua escrava, por acaso?
- Sabe que não gosto de carne-seca.
- E daí, não pode comê-la?
Após esse bate-boca sem diálogo, onde cada um dos interlocutores fala sem preocupação de entendimento, muitas vezes o homem levanta-se colérico da mesa, batendo os talheres, criando um clima tenso para os filhos que assistem o espetáculo sem poder censurar ou aplaudir.
- Puxa vida, mãe, você poderia...
- Cala a boca! É melhor ir estudar!
Uma oportunidade de justificar-se perante os filhos foi perdida. As explicações poderiam ser dadas: um diálogo onde cada um exporia um evento banal. A mulher, explicar a dificuldade de obter outro tipo de carne, porque estivera ocupada em colocar a roupa dele em ordem. O marido, compreender que um grande número de vezes a esposa tenta modificar a eterna rotina alimentar, na expectativa de variar o cardápio.
Indelicadezas recíprocas foram esquecidas em favor da desunião, do conviver bem entre os familiares.
Esse clima de antagonismo e egocentrismo persistirá na mente dos dois cônjuges quando ele voltar do trabalho. Talvez ele jante calado, num protesto mudo pela "gafe" do almoço, e ela mantenha-se calada e ressentida pela grosseria dele. É óbvio que, na intimidade do quarto, voltar-se-ão as costas no leito conjugal, apesar dos suspiros abafados.
Numa tentativa medrosa, ele talvez se encoste nela à procura de um carinho; mas ela ainda mantém viva a lembrança da cena do almoço.
- Deixe-me em paz!
- Você nunca está disposta!
Se as palavras fossem outras, o convívio desse momento seria diferente. As palavras são ponte do pensar para o agir.
- Censuras, censuras – pensou ela em silêncio, virando-se para o lado oposto.
- Mulher fria! – pensou ele, saindo num arranco do leito conjugal, indo para o sofá da sala, onde passaria a noite, remoendo-se e sonhando com outras mulheres...
POST SCRIPTUM DA COLUNA: Esta homenagem à fundadora Clotilde Vieira, estendemo-la a todas as mães que são integrantes da AULE e às demais que nos lerem, pelo DIA DAS MÃES de 2025.
Na foto com os também escritores, e cofundadores, contador José Xavier Gomes,
radiojornalista Francisco Xavier Pereira e engenheiro Iran Ibrahim Jacob, a autora de pelo menos treze livros — um deles “HISTÓRIA DE UBÁ - PARA AS ESCOLAS”.
MARIA CLOTILDE BATISTA VIEIRA foi a fundadora, em 1983, da
ACADEMIA UBAENSE DE LETRAS, que presidiu até a morte em 1995.
PARALELAS – FLASHES CONJUGAIS...
(do livro "Sopa de Pedra", de Clotilde Vieira)
*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.
Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.
A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.
academiaubaensedeletras@gmail.com







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