A canção de Gonzagão já tem no refrão como é bom São João na roça!

“Mineiro: bora passear na minha cidade, Maragogipe. Lá fazemos de montaria o boi; e tem a Suerdieck, histórica fábrica de charutos cubanos”

“O amor não correspondido deixa marcas que a memória não consegue apagar”. É o que pela boca do Padre Zezinho SCJ adverte Jesus, num dos livros do sacerdote escritor/compositor/cantor.

Mas há também experiência positiva na vida, que este então jovem devinte e poucos chegou aos setenta e alguns anos sem conseguir esquecer:

Comecemos por confirmar a giga, belíssima e vitoriosa história da citada indústria fundada por dois alemães no recôncavo baiano, que está contada no volumoso livro do literato soteropolitano Ubaldo Marques Porto Filho. Um escritor que morou na rua da Ordem, estudou na ruaSanta Cruz e no Ginásio S. José e escreveu muito também sobre Ubá.Mas aqui seguiremos falando é do São João vivido. Vale curtir, leitor!

Na ida, o “nativo” Juracy Bartolomeu Guerreiro (da pensão) me preveniu:

— Oh, hoje é véspera de 24 de julho e você vai conhecer o São João de Cachoeira.

Procedamos assim: a cada casa que formos entrar, só o faremos se for positiva a resposta à nossa senha (pergunta) “São João passou por aí?”... (é como funciona lá). E foi assim que nos empanturramos em cada um desses domicílios, sem nenhum desembolso. Demos um agrado, como achamos por bem, pois a ninguém é dado explorar a bondade alheia.

Comidas típicas em abundância para os que chegam. Do outro lado do rio (foto) é o município de São Félix. Pouco além, de lá vê-se uma cidade alta, é Muritiba, torrão natal de Castro Alves. E antes passáramos por Santo Amaro (da Purificação), terra de Caetano e Betânia, onde ainda morava a mãe dos cantores. Além do inesquecível passeio, pois, um tour.

A Festa de São João em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, é uma dascelebrações juninas mais autênticas, tradicionais e culturalmente ricas do Brasil. Ela vai muito além dos festejos típicos, mergulhando profundamente na identidade histórica, religiosa e cultural da região.

Por questão de espaço, nos limitaremos aos aspectos mais marcantes:

1.Cenário Histórico e Espiritual — Cachoeira é uma cidade histórica,Patrimônio Nacional, com casarões coloniais, igrejas barrocas e localizada às margens do Rio Paraguaçu. Esse cenário proporciona uma atmosfera única. A festa tem uma forte sincretismo religioso, mesclando o catolicismo (devoção a São João Batista) com tradições afro- brasileiras, principalmente do Candomblé. A figura de São João é frequentemente associada a Xangô, orixá do fogo, trovão e justiça.

2.O Momento Ápice — A Fogueira no Rio Paraguaçu (Noite de 23 para 24

de junho): — Esta é a imagem mais icônica e emocionante da festa. Não é uma fogueira comum no chão. Uma grande estrutura de madeira em formato piramidal ou cônico é construída em uma jangada. À meia-noite

do dia 23, após a missa solene na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, a fogueira é acesa no meio do Rio Paraguaçu. A jangada emhamas desce lentamente o rio, iluminando as águas e refletindo nas fachadas coloniais, criando um espetáculo visual de rara beleza e forte simbolismo (purificação, renovação, homenagem a São João/Xangô).

Enquanto a fogueira desce, barquinhos pequenos, decorados combandeirinhas e velas, são soltos no rio pelos fiéis, carregando pedidos e promessas. É uma procissão luminosa tocante.

3.Tradições Singulares — Procissão do Fogaréu (Anos Ímpares): — Uma das tradições mais antigas e impressionantes. Na noite de 23 de junho, em anos ímpares, homens vestidos de farricocos (figuras encapuzadas que remetem a algo entre penitentes e soldados romanos) desfilam pelas ruas escuras carregando tochas acesas, representando a busca por São João Batista. É um evento solene, dramático e de grande impacto visual e espiritual. Queima de Judas e Serpentinas: Além do Judas (boneco representando o traidor), é comum a queima de grandes serpentinas –rolos de fogos de artifício amarrados em estruturas de madeira que giram criando círculos de fogo no céu. Mastro de São João: Erguido em frente à igreja matriz, enfeitado com bandeiras e símbolos juninos. Lavagem do Adro: Tradição de lavar o adro da igreja matriz antes dos festejos,mostrando a ligação com as lavagens típicas da Bahia.

4.Cultura Viva: Música, Dança e Gastronomia: — Música: O forró pé-deserra está presente, mas o samba de roda do Recôncavo é a alma musical da festa. Grupos tradicionais tocam nas ruas, praças e terreiros, mantendo viva essa expressão cultural reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Também há apresentações de capoeira, maculelê e outras manifestações afrobaianas. Comidas Típicas: Além das comidas juninas comuns (milho, amendoim, pipoca, pamonha, canjica, cocada), destacam-se: Quentão (ou Quentão de Cachoeira): Feito com cachaça de qualidade da região gengibre, cravo, canela e às vezes ervas. Diferente do vinho quente do sul/sudeste. Licor de Jenipapo: Tradicionalíssimo da região. Bolos: De milho, mandioca, aipim. Comidas de Azeite de dendé etc, como: caruru,vatapá, abará, bobó de camarão, sarapatel, xinxin de galinha, moqueca,farofa de dendê. Tudo refletindo a influência africana.

5.Ambiente e Experiência: — A festa toma conta de toda a cidade, com arraiais nas ruas e praças, especialmente na Praça da Aclamação e nas ruas próximas ao rio. O clima é de alegria contagiante, calor humano e forte senso de comunidade. É uma festa onde se sente a tradição enraizada. É menos comercial e mais comunitária e religiosa do que

grandes festas juninas de capitais.

Em Conclusão: — A Festa de São João em Cachoeira não é apenas uma festa junina; é uma imersão cultural e espiritual no coração do Recôncavo Baiano. A fogueira no rio, a Procissão do Fogaréu (em anos ímpares), o samba de roda pulsante, o sincretismo religioso palpável e o cenário histórico único a tornam uma experiência inesquecível e profundamente autêntica. É a celebração da identidade cachoeirana, uma mistura vibrante de fé católica, tradições afro-brasileiras e o espírito acolhedor do povo baiano. / Se tiver a oportunidade de ir, vá preparado para se emocionar com as tradições seculares e a energia única dessa celebração!

*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.

Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.

A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.

 

academiaubaensedeletras@gmail.com


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