Criticam o vizinho ou outros que guardam “isso” em casa.

... Citou o caso de família em cuja residência ou local de trabalho não se admite guardar, sequer por curtíssimo prazo, quaisquer sobras de material usado, muito menos de alimento, por mais que aproveitáveis para outra ocasião ou por outras pessoas; e não importando o valor ou o sacrifício que tenha custado.

Dentre esses “restos”, soem incluir-se os de construção civil e até peças do ferramental nela utilizado; também, toda sorte de materiais de embalagem, mormente derivados do plástico; às vezes até agulha; livros e revistas, jornais velhos e papéis em geral, idem. Argumentam que a guarda “disso” — recusam-se até a manter botijão de gás sobressalente, hein! — afeta a estética, ocupa lugar, desarruma a casa, o escritório, a fábrica... Criticam o vizinho ou outros que guardam “isso” em casa.

Invejavelmente liso, lavado, encerado, brilhante, é como se apresenta o ambiente dessas pessoas. Mas... quando necessitam de uma sujidade daquelas, vão em cima desses “lixeiros” cujo “colecionamento” vivem a condenar. À menor suspeita de estado febril em casa, o vizinho que lhe empreste, imediatamente e por mais esta vez, o medicamento (nunca têm reserva alguma), além do termômetro — que custa até menos de vinte reais, gente! Isto, alta madrugada gelada ou sob temporal que seja.

A furadeira doméstica, um martelo ou chave de fenda, o serrote ou até um prego, parafuso ou pedaço de arame, caixas de papelão... — ah, fulano, eu sei que você tem aí, e não vai lhe fazer falta, me arranja logo! O cartucho da impressora está sem tinta (?), imprime no vizinho; se o equipamento é multifuncional, xeroca aí pra mim(!); a linha telefônica foi suspensa, seja por defeito ou por falta de pagamento, usa o do “ao lado”. Faltou batata-palha para o estrogonofe, no morador contíguo tem; pó para o café da manhã, idem; enlatado, enquanto faz o ajantarado — fulano, pega ali com o sicrano! Veículo emprestado ou “carona”, na “emergência” — Amigo, me quebra esse galho! Está passando mal... mora doutor caridoso na rua! Só algumas latas de areia... pula o muro ali e pega!

Conquanto o “lixeiro” vive martirizado com a oposição da esposa aos seus guardamentos, é ela própria quem lhe determina que atenda incondicional e imediatamente, se o “freguês” é um familiar seu (dela). E mais: tem que fornecer a “imundície mais envernizada” e permanecer de posse do “chorume”. — Vem comigo! — diz o marido, mostrando, lançados ao latão da sujidade, as tantas caixas de papelão vazias, garrafas pet, peças de madeira e “n” objetos outros. “Simples questão de tempo, similares desses objetos nos serão pedidos ‘por empréstimo’, pelos mesmos que agora os eliminam”, reprova.

Desta forma, quem age com bom senso é punido, em lugar de ser premiado e vice-versa. A última acontecida foi u’a moça que tocou a campainha, em pleno horário das “panelas no fogo”: — Bom dia! “Eu resido umas dez casas abaixo, nesta mesma rua; essa família foi indicada por u’a amiga minha, aqui divisando, para eu conseguir de vocês um favor, uma caridade, desculpe-me: necessito, por empréstimo, um colchonete, recostado ao qual minha velha mãe, já moribunda, seguirá agora de carona com outro vizinho rumo a uma internação hospitalar de urgência/emergência.” (Em tempo: a família que indicou o vizinho para esse tipo de favor é dessas que não abriga em sua casa objetos que poderiam servir para esse tipo de atendimento; e é contumaz em recorrer à indicada)

“Citando mais um ‘rosário’ de exemplos, foi como desabafou comigo a vítima” — assim arrematou o professor Tarcizio de Mauá esta nossa conversa última.

*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.

Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.

A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.

 

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