Isto equivale a dizer que a contagem dos anos só foi reconhecida poucas gerações atrás

Recorrendo às enciclopédias vimos que a Bíblia é considerada o livro mais lido, editado, conhecido e estudado do mundo; que já foi traduzida para mais de 2 mil idiomas; que somente na versão Bíblia completa (não se incluem aí impressão parcial, ou seja: só o Novo Testamento; só os Evangelhos...) já foram impressas 18 milhões de edições. Em 1980 constatou-se que no Japão, com uma população de cristãos igual a 800 mil, vendiam-se anualmente um milhão de Bíblias. São 1.328 capítulos, 40.030 versículos, 773.692 palavras e 3.566.480 letras.

A palavra Javé aparece 6.855 vezes. Foi composta ao longo de 1.100 anos. Sem querer entrar no porquê das contradições e nas explicações para elas, já na primeira página dois relatos diferentes da criação do mundo: em 7 dias, em 1 dia; depois, criou simultaneamente o homem e a mulher / criou o homem antes e a partir de sua costela a mulher / criou na ordem progressiva plantas/animais/pessoas, criou na ordem homem/plantas/animais. Os personagens mais antigos, a Bíblia os coloca como tendo vivido até mais de 900 anos, enquanto estudos indicam que a média de vida do humano veio aumentando para chegar hoje a aproximadamente 75 anos.

 A Arca de Noé é descrita como de dimensões semelhantes às de um transatlântico moderno, que só a engenharia naval do século XIX conseguiu construir. O mais pitoresco e difícil de admitir é que Noé e sua família pudessem ter percorrido os cinco continentes do planeta para trazer todas as espécies de animais existentes. E seria impossível repovoar o planeta com um casal de cada, afirmam os ecologistas. Outra coisa: o ciclo hidrológico de evaporação que provoca a chuva é incapaz de prover uma quantidade de água que inundasse os 510.000.000 km2 da superfície da Terra, como afirma a Bíblia ao descrever o dilúvio.

 O calendário ocidental, formado e determinado pelo cristianismo, considera o nascimento de Jesus de Nazaré — conhecido como Cristo — o ponto de virada da História. Ao datar a era moderna a partir de seu suposto nascimento (acredita-se que, na verdade, tenha nascido no ano 4 aC.), o cristianismo concretizou a importância de Jesus Cristo. Os cristãos acreditam que Jesus Cristo é o único Filho de Deus e que existia, assim como Deus Pai, desde antes do início dos tempos, tendo se encarnado só há dois mil anos; foi quando Deus quebrou o poder do pecado e do mal através da morte de Jesus na cruz. Jesus ensinou que Deus é como um pai que cuida de cada uma das pessoas na Terra.

História quase sem fim, prossigamos falando do calendário ocidental, que é o que prevalece hoje em todo o planeta. É este, pois, doravante, o assunto que nos interessa. Pois bem. Até o tempo do polonês Copérnico (1473-1543), os astrônomos aceitavam a teoria formulada por Ptolomeu há 1.400 anos, de que a Terra era o centro do universo e não se movia, e de que todos os movimentos dos corpos celestes eram reais. “As estrelas caem sim, meu filho, mas ninguém consegue vê-las de perto, pois é em alto mar que caem”, respondia dona Catarina, minha mãe, há menos de 50 anos, àquela minha pergunta de menino.

Em 1542 a Inquisição é restabelecida como órgão oficial da Igreja, dirigida de Roma pelo Santo Ofício. O tribunal detém com violência o avanço protestante em Portugal, Espanha e Itália. Galileu Galilei, astrônomo físico e escritor italiano, considerado o fundador da ciência experimental moderna (1564-1642), entrou em choque com os ensinamentos de Aristóteles ao descobrir que a lua não era, como se pensava, uma esfera lisa dotada de brilho próprio; que sua superfície era marcada por vales e montanhas; que a luz oriunda da lua era luz refletida.

Galileu sustentou firmemente a teoria de Nicolau Copérnico, de que a Terra se move em torno do sol, o que resultou no seu julgamento e condenação pela Inquisição. Galileu foi obrigado a desmentir suas teorias. Afirmar essas mesmas ideias valeu a Giordano Bruno — mostra o filme de mesmo nome — ser queimado vivo pela Inquisição.

Ora, a julgar pelo que foi lembrado acima, decorridos os supostos 4,5 bilhões de anos de existência do nosso planeta, no vizinho século XVII ainda era proibido conceber ano: tempo que a Terra leva para dar uma volta completa ao redor do sol. Isto equivale a dizer que a contagem dos anos só foi reconhecida poucas gerações atrás. Tal informação parece ajudar a entender a ausência de datas na Bíblia: “Naquele tempo...”. E mais: permite afirmar que toda e qualquer referência a tempo passado, expressa em anos, só foi calculada há menos de cinco séculos e, talvez, transformando-se dias em anos. E com que precisão(?), já que acumular dias para transformá-los em anos era de se supor 365 vezes mais complexo em relação a acumular anos, que por sua vez nem imaginamos como teriam conseguido controlar sem se perder... numa era tão distante do computador.

Por volta de 1519 (ainda não existia foto), era como se imaginava o planisfério ( fonte: https://www.loc.gov/resource/gdcwdl.wdl_18562/?sp=1&r=-0.29,0.043,1.453,0.603,0 )

*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.

Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.

A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.

 

 

academiaubaensedeletras@gmail.com


COMPARTILHE O LINK DA MATÉRIA

COMENTAR MATÉRIA