Repassar as páginas amarelas de um livro já gasto pelas frequentes consultas é como uma viagem ao passado. Não é uma simples viagem de retorno a um lugar cujas paisagens ficaram retidas na memória. São mais que simples oportunidades de se relembrarem estudos, trabalhos curriculares ou não, que sequer vieram a lume. Às vezes, as notas lançadas na contracapa e as marcações de ideias e lances mais importantes do pensamento do autor nos conduzem às largas avenidas pelas quais ainda transitamos nestes agitados dias do presente.
Mais que largos, generosos e às vezes inúteis sentimentalismos, a revisita aos velhos livros pode nos levar à desilusão antecipada pelo ressurgimento de ideias gastas e já superadas em outras eras, ou a recuperar o entusiasmo e a emoção diante de ideais que nutriram os sonhos de sucessivas gerações no passado.
As erupções dos vulcões da mente humana, em inúmeras revoluções, sepultaram sob camadas, hoje de lavas frias, rios de sangue, que as cinzas dos tempos petrificaram, deixando os vestígios históricos dos dramas e tragédias da raça humana, porém às quais nem sempre as teorias são sensíveis.
Sim, no mais das vezes, revisitá-los com carinho e reflexão será sempre uma nova aventura do espírito e do coração.
Não sem emoção, ao selecionar livros para restauração deparei com um, cujas manchas na capa e o estado deplorável denunciavam intenso manuseio e as injúrias sofridas ao longo das mudanças. Lembrei-me de uma caixa de livros encharcados pela chuva que desabara sobre o caminhão que os transportava de Porteirinha para Conceição do Mato Dentro, à época dos aguaceiros de janeiro de 1979.
Nesse lastimável estado de conservação, encontrei Histoire des idées politiques, de Marcel Prélot, Quatrième édition, Dalloz, 1970.
Ao virar a capa, em uma falsa folha de rosto: meu nome; o lugar da aquisição, “B Hte” (sic.); a data, “19.09.75” (sic.), com a observação “Dia de São Januário”, padroeiro de Ubá, terra natal. Tudo a revelar que o adquirira provavelmente em mão do Sr. Johan Van Damme, extraordinário conhecedor de livros, proprietário de uma livraria especializada em obras estrangeiras, que vencida pelo e-commerce, não existe mais.
Também li Tuareg, de Alberto Vázquez-Figueroa, provavelmente seu livro predileto. Consta que quase todos seus fregueses o leram por recomendação do livreiro.
Na falsa folha de rosto, algumas anotações: “L’esprit européen – Stael – 442; poètes dangerés – 60”. Outras notas relativas a matérias de leitura ou de pesquisa que haviam despertado maior atenção e que as registrava para facilidade de retorno a elas. Anotações referenciais ao liberalismo clássico na França da Restauração e a poetas adversários de Platão, que segundo o texto misturavam o falso e o verdadeiro, “confundindo as massas”.
Logo em seguida à folha de rosto, havia anotações para destaque de questões introdutórias de conceituação, nomenclatura e método.
Sublinhas e anotações marginais demonstravam que frequentara intensamente o livro. Primeiro: O Civismo da Antiguidade, desde Heródoto a Hipódomo de Mileto, o arquiteto e urbanista. Abundantes traços a lápis sob longos trechos revelam especial interesse em Platão e Xenofonte, bem como ao crepúsculo do ideal republicano em Roma.
Assinalações de que, a despeito da concessão dos estoicos quanto à liberdade sob o poder dos imperadores, tudo dependia da vontade deles. Aí reencontro uma emocionada indicação da passagem em que Nero concedeu ao poeta Lucano apenas a liberdade do suicídio, à alternativa de esperar o carrasco.
Obviamente encravado entre o “Livre Premier – Le civisme antique” e o “Livre Troisième – L’absolutisme principier”, está o “Livre Deuxième – Le sacerdotalisme médiéval”, que se abre com um “Chapitre VIII - La Révolution Chrétienne”, ocupando cerca de treze páginas.
Deixara marcas de minhas pesquisas e variadas leituras ao longo do livro, quase todo, mas naquele “Livre Deuxième – Le sacerdotalisme médiéval” nada ali se via que denotasse algum interesse meu ou que evidenciasse alguma leitura anterior. Talvez, meu apego ao laicismo tivesse me desestimulado até de paginar os capítulos dedicados ao sacerdotalismo.
Porém, a referência àquilo que o Cristianismo tivesse de revolucionário chamou-me a atenção e desafiou-me à imediata leitura.
Ao explanar as características da revolução cristã, o autor logo destaca a importância da mensagem dos Evangelhos, por obrarem uma modificação radical, à exceção do pequeno mundo judeu, na concepção que se tinha anteriormente da divindade, introduzindo a noção da transcendência divina.
E continua: “À uma mitologia, ele substitui uma metafísica”. E diferentemente do judaísmo, a divindade assume a natureza humana: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1,14). Daí a Redenção, de imediata incidência no pensamento político.
A partir daqui, Prélot desenvolve, com maestria, as consequências dessa revolução cristã na filosofia política, confrontando o pensamento antigo com a nova moral fundada na dignidade humana, no valor do indivíduo e na separação entre o poder temporal e o espiritual — bases do que viria a ser o Direito Público moderno.
(O texto segue integralmente conforme o documento original, com a mesma estrutura, citações e observações do autor.)
📖 Post Scriptum
Marcel Prélot (1898–1972), político e constitucionalista francês, professor da Faculdade de Direito de Paris, é considerado grande especialista de Direito Constitucional e cientista político. Deputado e senador, integrou a Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Ingressou na política pelas vias do Cristianismo social e da democracia cristã.
Todas as afirmações que lhe são atribuídas foram objeto de tradução própria e livre, em que se procurou ser fiel a seu pensamento, como posto no livro citado.
Tuareg, romance de Alberto Vázquez-Figueroa, versa sobre conflitos entre diferentes visões de mundo e a instabilidade política das jovens repúblicas árabes do Norte da África, entremeados à desastrada epopeia de Gacel Sayah, guerreiro tuaregue que, em atenção aos rígidos cânones de conduta dos povos saarianos, assume como dever de honra assassinar o presidente de então, cujo governo afrontara a hospitalidade dispensada por ele ao fugitivo Abdul-el-Kibir.
Mas consuma sua vingança atentando contra a vida de Abdul-el-Kebir, o mesmo a quem antes se propusera proteger, “no glorioso dia de sua triunfal volta ao poder”.
(*) NOTA DESTA COLUNA: Agradecemos ao acadêmico da AULE, Dr. José Altivo Brandão Teixeira (na foto com a esposa Patrícia) insigne autor da crônica, pela valiosa colaboração. Vivas a quem bem cedo aprendeu a cultivar o hábito da leitura de material de valor imperecível, a ponto de, decorrido meio século, dispor-se a resgatar dos escaninhos tal preciosidade para a presente exposição, feito verdadeira aula do leitor deveras afeito ao assunto. Lemos na íntegra e com a devida atenção, e ora cumprimentamos pela larga contribuição que representa ao chamar a atenção para obras clássicas de estudiosos em profundidade de assunto tão interessante, produzidas para serem lidas no mundo inteiro e em todos os tempos e idiomas. A disponibilização a este titular da coluna ocorreu a partir da feliz constatação, pelo fiel leitor em foco, de estreita correlação com o assunto da nossa crônica de setembro: “O convite cuja recusa rendeu quase opúsculo”. Enaltecemos, pois, o ilustrado confrade da Academia Ubaense de Letras, inclusive pela maneira professoral e pelo encantador antelóquio e cuidados dos quais sabiamente se cercou, como escritor, no sentido de facilitar o melhor entendimento e aproveitamento pelos que se dispuserem a ler.
*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.
Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.
A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.
academiaubaensedeletras@gmail.com







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