* Antônio Carlos Estevam
O acompanhamento de noticiários da grande imprensa brasileira, seja via fontes como Carta Capital, Folha de S.Paulo... CBN, Band e os contatos WhatsApp com pessoas também acostumadas a se bem informar, subsidiaram as conclusões a seguir.
A relação entre política, neopentecostalismo e elites não é uma simples troca de favores, ela forma um ecossistema de poder que se retroalimenta: Uma base ideológica (Teologia da Prosperidade/Neoliberalismo) justifica uma prática política (clientelismo via emendas e alianças) que beneficia grupos específicos (elites políticas, religiosas e econômicas), enquanto enfraquece a sociedade (precarização, individualização) e combale (do verbo combalir) a economia nacional (instabilidade, baixo investimento produtivo).
2 Aprofundar esta análise demandaria abordar acontecimentos específicos, explorando, por exemplo: casos concretos de como a Teologia da Prosperidade é ensinada em programas televisivos atuais; o fluxo detalhado de emendas parlamentares para organizações ligadas a igrejas; análises econômicas sobre o custo do clientelismo para o crescimento do PIB. Mas o alongar exigiria espaço maior no veículo de comunicação. Assim, limitemo-nos ao que seguimos analisando por partes.
Pois bem:
A relação entre política, neopentecostalismo e elites econômicas no Brasil formou um sistema complexo que influencia a economia e a sociedade. Este brevíssimo estudo conecta essas esferas, focando nos mecanismos de enriquecimento ilícito e seus impactos.
Relativamente à Base Ideológica, o neopentecostalismo forneceu uma justificativa religiosa para valores econômicos neoliberais, principalmente por meio da Teologia da Prosperidade. Seus princípios são: Confissão Positiva: Acredita-se que a fé, demonstrada por declarações verbais e ofertas financeiras, pode gerar bênçãos materiais. O fracasso ou a pobreza são vistos como falta de fé ou presença de maldições. Mérito e Desigualdade: Essa teologia vincula sucesso material à virtude espiritual, naturalizando a desigualdade social. A pobreza é interpretada como uma falha individual, não estrutural. Sinergia com o Neoliberalismo: Essa visão se alinha com a ideia neoliberal de que o Estado e os impostos são os principais problemas. A solução para as mazelas sociais seria o combate à corrupção estatal e o incentivo ao empreendedorismo individual, não a políticas redistributivas. Mas muitos dos que advogam tal ideia, se beneficiados não abririam mão...
Agora, atendo-nos particularmente à Aliança Político-Religiosa, vemos que Igrejas neopentecostais se tornaram atores políticos poderosos. Sua influência opera em duas frentes principais: Base Eleitoral e Agenda Conservadora: Grandes denominações comandam um eleitorado massivo e coeso. Em troca de apoio a candidatos, exigem a promoção de uma agenda moral conservadora e a defesa de seus interesses institucionais. Essa aliança ficou evidente em governos recentes, onde figuras religiosas tiveram acesso direto ao poder. Substituição de Mecanismos Coletivos: A função social dessas igrejas, para muitos fiéis, substituiu o papel tradicional de sindicatos e associações comunitárias, especialmente após reformas que enfraqueceram essas organizações. Elas passaram a ser o principal canal de mediação entre o indivíduo vulnerável e o acesso a redes de apoio, consolidando poder político.
3 O Sistema de Emendas Parlamentares: A Moeda de Troca — O orçamento público, principalmente via emendas parlamentares, é um instrumento central dessa relação. O mecanismo funciona como um ciclo de favorecimento: Políticos alocam recursos para municípios ou organizações (como igrejas que mantêm ONGs); esses recursos geram obras, empregos ou ajuda social pontual; a benfeitoria é creditada ao político ou à igreja local, que mobiliza o voto de gratidão; o voto garante a reeleição e a perpetuação do ciclo.
Esse sistema desvia o foco do debate sobre políticas públicas estruturantes para o clientelismo local, onde a lealdade vale mais que projetos de desenvolvimento.
A Conivência das Elites e a Moral Seletiva — A crítica da elite econômica à corrupção costuma ser seletiva. Ela é feroz quando aponta a "corrupção estatal" ou de políticos de esquerda, usada para defender menos Estado e menos impostos. No entanto, essa mesma elite frequentemente se beneficia de relações espúrias com o poder.
Lobby e Captura Regulatória — Grandes corporações financiam campanhas e mantêm lobistas para influenciar leis e regulamentos em seu favor, um processo muitas vezes legalizado, mas que distorce a economia.
Tolerância na Própria Bolha — Escândalos de corrupção que envolvem empresários ou setores tradicionais da elite geralmente recebem menos indignação midiática e social, tratados como "erros isolados". O verdadeiro "choque" ocorre quando a narrativa de que a corrupção é um mal exclusivo de políticos populistas desmorona.
Impactos na Economia e nos que produzem — A confluência desses fatores gera consequências graves e de longo prazo:
Para os Trabalhadores e a Sociedade — Precarização, com a visão que glorifica o empreendedorismo individual e enfraquece sindicatos, contribuindo para a informalidade e a perda de direitos trabalhistas; Exploração da Vulnerabilidade: A promessa religiosa de prosperidade pode levar a doações além das posses do fiel, enquanto a solução para problemas complexos é buscada na fé individual, e não em ação coletiva ou políticas públicas; Desmonte da Ciência e do Estado: A desconfiança promovida contra a ciência (como visto durante a pandemia) e a narrativa do Estado como inimigo incapacitam ferramentas essenciais para o planejamento econômico e social.
Para a Economia Nacional — Incerteza e Instituições Frágeis: As alianças espúrias e a corrupção minam a confiança nas instituições, 4 desestimulando investimentos produtivos de longo prazo; Custo Brasil Ampliado: a má alocação de recursos públicos via clientelismo e o subsídio a setores ineficientes em troca de apoio político aumentam os custos para a economia como um todo; Dependência e Estagnação: a economia permanece refém de interesses setoriais e grupos de pressão, travando a inovação e a necessária diversificação produtiva. Conflitos geopolíticos decorrentes de alianças ideológicas, por exemplo, podem resultar em sanções e perda de mercados, prejudicando exportações.
*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.
Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.
A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.
academiaubaensedeletras@gmail.com







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