Antonio Carlos Estevam — da Academia Ubaense de Letras
A foto que ilustra esta crônica foi uma das que registrou o “lounge da Virada Cultural”, comandado pela exímia professora Rose Flores, no bairro Ligação, em Ubá-MG, SEX-16.07.2022.
Este escriba compareceu a convite irrecusável, porque da simpática e ilustrada bibliotecária que já por décadas, com zelo e competência própria de poucos, dirige a Biblioteca Municipal de Ubá. No sentido horário, na foto vemos: a esposa de José Lourenço Brandão, ao lado dele; o senhor Prefeito; eu, o Estevam da AULE; a filha de José Luiz Simplício; a acadêmica Cristina Elizabeth; Rose Flores; prof. José do Carmo; e o operário Elias, conhecido como “Poeta Passarinho”.
Segue-se o resumo de um antigo caso familiar — acontecido numa cidade mineira, em antiga região de mineração de ouro e que envolveu um bandeirante —, para em seguida fazermos referência ao evento ilustrado pela foto:
A história da fuga da filha de Amador Bueno da Fonseca com Goulart Brum é um clássico episódio romântico do período colonial mineiro, ambientado na região de Itumirim (MG), que reflete as tensões entre amores proibidos e autoridade patriarcal.
Amador Bueno da Fonseca, bandeirante e fazendeiro influente no sul de Minas Gerais, opôs-se veementemente ao romance de uma de suas filhas com Goulart Brum, um comerciante de Campanha que negociava produtos entre o Sul e as minas de ouro. A família confiscou as roupas da moça para impedir a fuga, mas ela escapou nua por uma janela da fazenda, encontrando Brum que a esperava com vestimentas, cavalos e aliados para enfrentar eventuais perseguidores.
Os amantes fugiram a cavalo rumo a Campanha, onde se casaram e se esconderam temporariamente, apesar das buscas ordenadas por Amador. A família tentou frustrar a escapada com seguranças e guardas na ponte local, mas os fugitivos já estavam distantes quando os alarmes soaram. Poucos dias após, Brum retornou bravamente à fazenda com a esposa, enfrentando o sogro e conquistando sua relutante aceitação, o que transformou oposição em aliança familiar.
Esse drama amoroso marca o início documentado do povoado de Itumirim, com a construção de casas para alojar policiadores e a melhoria da guarda da ponte, ponto estratégico para tropeiros rumo a São João del-Rei. A narrativa, preservada em relatos locais como o site da prefeitura de Itumirim, simboliza a bravura dos jovens contra convenções sociais rígidas do século XVIII.
As fontes históricas primárias sobre a fuga da filha de Amador Bueno da Fonseca com Goulart Brum em Itumirim são escassas e majoritariamente orais ou derivadas de relatos locais do século XVIII, preservadas em tradições familiares e crônicas regionais do sul de Minas Gerais.
A narrativa aparece em memórias de Batista Caetano sobre a comarca do Rio das Mortes, mencionando o episódio como marco para o povoado de Itumirim, com detalhes sobre a ponte vigiada e a fuga noturna. Blogs e sites como o da prefeitura de Itumirim (www.itumirim.mg.gov.br) compilam essas tradições, baseadas em histórias contadas por idosos e fundadas na pedra.
Voltamos ao evento da Ligação, em Ubá-MG, para a justificativa do título desta crônica.
Tentaremos resumir aqui o que o seria a nossa fala na ocasião, mas que o nó na garganta, que mesmo que não tivesse sentado ao meu lado o então prefeito municipal Edson Teixeira Filho, como se vê na foto, ainda assim tal impedimento teria se registrado, pois como orador nunca consegui ser diferente disso.
A foto mostra os convidados como escritores vivos de Ubá.
Como eu, em fala numa “Bienal de Ubá” — monumental feira de livros realizada pela Secretaria de Educação (gestão da professora Beth Barros) — já fizera minha a expressão ouvida certo dia do literato ubaense José Xavier Gomes “eu não sou escritor...”, evitei de repeti-la, ali na Ligação. A seguir, a explicação que eu teria dado para o que “tomei” do sr. Xavier:
— Como comparar a qualidade de um escrito da lavra de Antonio Carlos Estevam à de um um assinado por Machado de Assis, Affonso Romano de Sant’Anna, Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Jorge Amado, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Veríssimo (pai e filho), Rubem Fonseca, Rubem Alves, Lygia Fagundes Telles, Ariano Suassuna, Gregório de Mattos, Castro Alves, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e todos os demais que equivalham, inclusive um ubaense da estirpe dos escritores Antonio Olinto, Dr. Ary Gonçalves, Dr. Floriano, Sílvio Braga ou Rosalvo Braga?
Assim, existem autores cujas produções merecem que quem as assina receba legítima contraprestação pecuniária para disponibilizá-lo ao leitor.
Mas não é o caso de escritos de pessoas comuns, que não podem ser classificados como de escritor profissional.
E a quem cabe reconhecer isto, senão os próprios autores?
Isto não impede, evidentemente, que dentre esses leigos, digamos, haja os que aceitam ser vistos como um amador, no ofício. Mas impede que manifestem, seja com palavras ou atos, o entendimento próprio de ter o direito de receber pagamento pela oferta que seria de um exemplar de livro seu — cuja leitura pelo contemplado já era para ser sentida como um pagamento maior que aquele que seria o correspondente ao valor de mercado do produto, com o ofertante se sentindo sobremaneira honrado, na mesma proporção do porte de leitor sabido caracterizar aquele que, seja por educação ou amizade, aceitou aquela oferta, mas feita graciosamente.
Agora, o como (mais ou menos) arremataria eu a minha fala, lá na Ligação:
— Olha: material guardado em casa ou no escritório, ou acessável na busca em jornais ou revistas, arquivos ou bibliotecas, ou no mundo sem fim da internet... em quantidade necessária a enfeixar em forma de livro, sendo impresso em gráfica ou não, isto não há quem não os tenha. Assim também, colocar suas ideias ou memórias no papel ou na memória do computador, no linguajar coloquial ou mesmo polido — polido, na medida da capacidade intelectual de quem as escrevendo —, toda pessoa que consegue ao menos ler soletrando, dispondo-se ao necessário esforço conseguirá fazer, ainda que para publicar seja impreterível passar pelo crivo de revisor. Nada disso, porém, atesta tratar-se o “fazedor” de alguém que, por justiça, deve o outro pagar para conhecer suas ideias. Os livros que até aqui consegui produzir, eles aqui estão, sendo que só o primeiro deles consegui imprimir em gráfica, isto em 1997. Este, conquanto também se enquadre nos casos de escritos sem valor venal, foi parar na Biblioteca Municipal. Mas a edição única — já esgotada, de cinco centenas de exemplares impressos em gráfica — não teve sequer uma unidade vendida. Em relação aos demais, em número de quase duas dezenas de livros ou opúsculos, os que chegaram a ser enfeixados estão aqui, na minha mão, impressos artesanalmente na minha impressora de computador e encadernados em espiral, permanecendo à disposição de quem dos aqui presentes queira ler ou meramente folhear, absolutamente sem quaisquer ônus. E é como permanecerão, reconhecendo o autor tratar-se de material sem valor venal. Assim, convenhamos, existe Escritor e “escritor”! Muito obrigado!
*Antônio Carlos Estevam. Cronista e ensaísta, é membro efetivo da Academia Ubaense de Letras, sucedendo ao escritor Sílvio Braga na cadeira n. 21, que tem por patrono o jornalista Octávio Braga.
Estevam é produtor do veículo de comunicação independente Djaôj... e explica que não é sigla, é o nome completo do informativo. A pronúncia pelo homem do campo sói ser ouvida dijaôiji, querendo dizer: recentemente; há pouco tempo; ainda hoje... Exemplo: “— Tem visto fulano? — Uai, di-já-ôi-ji ele teve aqui". No caso do nosso periódico, “Djaôj...”, assim com reticências, significaria, mais ou menos: noticiando fatos, preferencialmente recentes.
A expressão tem como base a canção “De já hoje” com letra e música do cantor e compositor nativista gaúcho Adair de Freitas.







.jpg)
.jpeg)











